Enquadramento


Desde tempos imemoriais o vinho integra a nossa dieta tendo adquirido um importante papel não só na vida social, mas também nas tradições culturais e no património. Enquanto símbolo cultural duradouro, o papel do vinho evoluiu ao longo do tempo, deixando de ser apenas fonte de nutrição para se tornar também num complemento cultural à alimentação e à convivialidade, compatíveis com um estilo de vida saudável.

A arte da viticultura e da produção de vinho evoluiu e criou uma multiplicidade de relações entre várias ciências, tendo tido um forte impacto social ao longo dos tempos. O mais antigo testemunho escrito acerca da viticultura pode ser encontrado no Antigo Testamento da Bíblia onde é referido que Noé plantou uma vinha e produziu vinho. Vinhas fósseis com 60 milhões de anos (Riedel et al. 2012) são as evidências científicas mais antigas da existência de uvas.

A cultura do vinho na Europa antecede os tempos romanos. Na antiga Grécia o vinho era elogiado por poetas, historiadores e artistas sendo frequentemente referido nos trabalhos de Aesop e Homero. Thucydides referiu na sua obra que «as populações do Mediterrâneo começaram a emergir da barbárie quando aprenderam a cultivar a azeitona e a vinha». Assim, pode dizer-se que a produção de vinho é tão antiga como a própria civilização.

Na Europa a produção de vinho emergiu com a expansão do Império Romano pelo Mediterrâneo, quando muitas das principais regiões produtoras de vinho, ainda hoje existentes, foram estabelecidas. O contínuo desenvolvimento da produção de vinho aumentou a sua popularidade e o seu consumo por todo o Império.

Passados séculos, a arte de fazer vinho, bem estabelecida na Europa e em todo o mundo, é atualmente uma ciência. A apreciação moderna do vinho homenageia a arte intemporal de o produzir e demonstra a importância deste produto na história e na diversidade da cultura europeia.

Segundo dados da União Europeia, a Europa é o continente líder e de maior referência no que diz respeito à produção de vinho. Produzindo cerca de 175 Mhl todos os anos, contabiliza 45% de áreas de vitícolas, 65% de produção, 57% de consumo global e 70% de exportações em termos gerais. Os países europeus, com a mais longa história de vinificação, produzem alguns dos melhores vinhos do mundo.

Os vinhos europeus, com um grau surpreendente de versatilidade, variam de país para país e dentro de cada país de região para região e de produtor para produtor. Esta versatilidade é influenciada pelas características climáticas, fisiográficas, pedológicas, geológicas e vitivinícolas de uma dada região ou local.

Assim, e no que diz respeito ao papel da Geologia, a natureza do vinho expressa: (1) as diversas características geológicas encontradas pela videira à medida que, ano após ano, as suas raízes vão penetrando em profundidade; (2) as diferentes litologias, cada uma com a sua mineralogia, estrutura e litoquímica específicas; (3) as características químicas da água subterrânea e a sua taxa de fluxo.

Para além desta relação entre as características geológicas de uma dada região e a natureza do vinho, a Geologia é, ainda, responsável pela estruturação de paisagens inesquecíveis, adicionando um importante valor estético às regiões vitivinícolas, criando uma identidade e um sentido de pertença a um lugar.

A combinação de todos estes fatores indicativos da importância da Geologia promove o aumento do interesse no conhecimento dos processos geológicos e abre caminho para o desenvolvimento do Geoturismo aliado ao Enoturismo, uma vez que a Geologia e a Enologia incorporam espaços territoriais idênticos.

A vertente turística destas duas ciências permite promover e divulgar o património natural, histórico e cultural e o desenvolvimento ambiental sustentável.

A Região Demarcada do Douro

As inter-relações existentes entre o solo e a tipologia das vinhas de diferentes castas na Região Demarcada do Douro definem, na generalidade, as características dos vinhos que são produzidos nesta região.

Indubitavelmente, a paisagem singular duriense é o reflexo do tipo de substrato geológico sobre o qual atuaram os agentes de geodinâmica interna e externa, durante milhões de anos e, mais tarde, da intervenção do Homem. Sendo um território com uma geologia e orografia complexas, a interpretação da paisagem é deveras interessante. A região tem cobertura integral por cartas geológicas à escala 1/50 000, em que genericamente se destacam duas realidades geomorfológicas bem distintas: (1) a zona mais a montante (Douro Superior) dominada por vertentes íngremes, talhadas em rochas graníticas nas quais corre encaixado o rio Douro e os seus afluentes; (2) a zona a jusante (Cima Corgo e Baixo Corgo) em que o percurso do rio se faz atravessando as seis Formações do Grupo do Douro em vales mais abertos que dão lugar à típica paisagem vitivinícola.

Referência

Heidi Riedel, Nay Min Min Thaw Saw, Divine N. Akumo, Onur Kütük and Iryna Smetanska (2012). Wine as Food and Medicine, Scientific, Health and Social Aspects of the Food Industry, Dr. Benjamin Valdez (Ed.), InTech, DOI: 10.5772/33530. Available from: http://www.intechopen.com/books/scientific-health-and-social-aspects-of-the-food-industry/wine-as-food-and-medicine